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Há algum tempo eu tento, sempre em hora imprópria, escrever alguma coisa sobre o que vejo por aí, mas invariavelmente os dias e os fatos são mais rápidos: alguns aromas se perdem, outras sensações ficam pelo caminho. Todas as vezes que coloco os pés na estrada novamente recordo o quanto ainda há para se conhecer e me espanto com o pouco tempo que nos deram nesta vida.
Momentos legais são sempre muito casuais. No trajeto de volta para o evento me deparei com alguns jovens falando e tocando com emoção o projeto em que acreditam, a música clássica. Enquanto assistia uma de suas apresentações, imaginei a intensidade daquele microcosmo, tão distante de minha realidade. Fiquei realmente perplexo com o quanto nos fechamos em nosso mundo e com o poder da arte nos religar a momentos de paz e auto-encontro. Uma imensidão de jovens e crianças, por algum motivo desviadas dos descaminhos do créu, assistia a tudo hipnotizada e estava ali por livre arbítrio. Logo na chegada, horas antes, degustei o ensaio final de uma peça sobre o poeta Vinícius. Para a minha surpresa, na platéia a maioria também era formada por crianças, ainda prestes a conhecer as nuances da paixão e já tão bem amparadas ali pelas palavras do poeta branco mais negro do Brasil.
A arte estampa sensações muito individuais em quem a experimenta, mas para mim, o que pairava no ar era a sensação de que nem tudo estava perdido.
No galpão ao lado, ao tentar sair de um stand por uma lona, acabei dentro de uma célula, com alguns ribossomos, mitocôndrias e complexos de golgi. Fora a surrealidade natural do momento, o que me fascinou ali foi o timbre de voz apaixonado do instrutor. Sem demonstrar qualquer indício de monotonia, ele contava aquela mesma estória mais uma vez, sempre com novos matizes e cores, comprometido em desnudar com entusiasmo aquele mundo microscópico, tornando aquela experiência nova, a cada novo visitante.
Horas mais tarde eu estava sentado no maior shopping da América Latina, falando da agenda mecânica do Ministro de Ciência e Tecnologia, que nos visitara há algumas horas com um olhar anestesiado, sem saber sequer onde estava, enquanto seu cerimonial bem adestrado o arrastava dali ao fim dos cronometrados minutos, para uma nova sessão de fotos.
Já embaixo da ducha quente no hotel, refleti sobre o magnetismo da novela Pantanal, que dezoito anos mais tarde vem roubando a audiência da programação milionária dos outros canais. Nada de velocidade de videoclipe e efeitos visuais rebuscados, em meio a essa corrida sem senso em direção a sabe-se lá onde, temos preferido o charme das chalanas, os takes longos e os diálogos naturalistas de Juma e o inverossímil velho do rio, nos cafundós do Brasil.
Pouco antes de dormir, me deparei em minha caixa de e-mails com o mosaico imaginário e clínico de um dos olhares mais brilhantes que conheço, que ainda titubeia sobre o próprio valor de sua obra. Em cada uma de suas palavras, um exercício diário de busca da sua própria essência, escalando com esmero o topo da pirâmide de Maslow, em um ato de entrega à auto-realização.
Ao final de um dia repleto de pequenas experiências sensoriais, levo pra cama uma desconfiança: não devo estar sozinho, o ser humano anda morrendo de saudade de ser o que é, humano.
- Do que você está rindo?
- Não estou rindo, por favor não insista.
Recuei.
A última vez que a ouvi falar com aquela suavidade arrebatadora foi naquela estranha tarde em tons de sépia. Seu pai parecia fitá-la com um olhar amoroso, enquanto os bombeiros o retiravam inerte do carro destroçado pelo impacto.
Ela brincava com uma diminuta porção de gravetos ao meu lado, enquanto assistia à cena com um olhar impassível.
Não derramou sequer uma lágrima. Permaneceu sentada no acostamento por mais algumas horas, até que a única nuvem que estacionara ali perto descosturou-se no ar e o céu se tingiu de vermelho, antes que a noite inundasse tudo.
Seis anos depois, mudou-se para a casa no litoral, teve dois filhos lindos e amorosos, mas jamais experimentou sequer um segundo de paz com sua família. Suas tardes eram longos períodos agrestes, intercalados por novidades cotidianas que não amenizavam a atmosfera claustrofóbica de suas lembranças.
Nos sábados, costumava sentar-se na praia e brincar com os seixos próximos a seus pés. Desenhava figuras assimétricas na areia, como se tentasse desembaraçar seus pensamentos. O vento desorganizava os rascunhos e minutos depois ela estava novamente em casa, cercada pela vida que construíra até então, absorta pela perspectiva do nada e pela solidez do silêncio à sua volta.
Viver era apenas uma opção amena e assim ela seguiu singrando naquele suceder de dias, drenada pelo tempo.
[...]
Pensei em aproximar-me novamente, mas resolvi observá-la a uma distância segura.
- Vá embora, não vê que está tudo bem? - sussurrou baixinho. Estava a um passo de chorar convulsivamente.
- Por que me chamou aqui? - arrisquei.
Estou certo de que ela conhecia o ângulo mais favorável naquela meia-luz. Inclinou o rosto e bombardeou-me com um irrepreensível olhar de brandura:
- Você realmente não sabe?
O espaço-tempo entre nós pareceu chacoalhar em um mosaico de fragrâncias raras e inebriantes. Aquela estranha anestesia perdurou por mais algumas dezenas de outonos até que, adormecido em seu colo, recuei mais uma vez e mergulhei no nada.
"Uns fellas, depois de alguns anos sem fazer algo de útil, surtaram! De um surto veio a demente ideia de fazer o Boogie Woogie Infernal de novo e para piorar, a idéia foi aceita.
Dia 27 de junho o Pub 'N' Vezes, será mais uma vez, o centro do lazer e rock 'n' roll da melhor qualidade. Sodabilly quebrando tudo com o melhor do Rock 'N' Roll, Blues, Swing, Surf Music e afins. Como sempre. Pra' manter o clima infernal e a moçada suada, Dj PsychoSeboso bota uma sequência qualquer de algo que não se está acostumado ouvir nas casas de rock de Manaus.
O BWI é isso. Algo fora da rotina. Se você é um desses fellas que estava sem fazer algo de útil ou está de saco cheio da rotina de lazer, cai lá!
Só R$6 o ingresso. De graça também é sacanagem demais.
O fogo começa a ser ateado as 22h.
O lance é se divertir e curtir um puta lazer fudido!"
[...]
Porque eu vou:
>> O DJ é o Deco e não tem quem não goste das marmotas do Deco.
>> Uma pessoa que nunca vi bêbada vai ficar trilouca lá.
>> A maioria das figuras legais de Manaus vai.
>> Não dá playboy, só gente bacana.
>> Graças! Não é mainstream.
Toda vez que passo no álbum do Pedrão eu coro de vergonha de não conhecer as belezas de nosso estado. Fico de cara com o colorido e a precisão de suas fotos, resta sempre a frustrante sensação de que ele consegue ver uma floresta bem mais rica e cheia de detalhes do que a visão que presencio em minhas tímidas caminhadas pelos arredores das cachoeiras de Presidente Figueiredo. Verdade seja dita, em alguns momentos chego a acreditar que a fauna faz pose e colabora para que tudo saia no melhor ângulo possível. Dá vontade de largar o emprego e a vida na cidade, pegar uma voadeira e sair fotografando tudo agora. Mas já é noite e amanhã é dia de branco.
Domingo é dia de recarregar as energias com a Natureza abençoada, reencontrar amigos queridos e ter câimbras de tanto rir, beber aquelas doses essenciais para deixar este realidade de lado, limpar a vista, ouvir um barco tocando brega e forró (!!!).
Algumas surpresas e um choque com esta horrenda tabela de alimentos de 200 calorias: A manteiga é mais calórica que o bacon, que é menos calórico que um punhado de nozes. Para aniquilar meu dia, descubro que uma mirrada dose de Bailey's, uma de minhas poucas alegrias etílicas, faz o dobro do estrago que 3 ovos.
E o que me resta de esperança se traço uma garrafa de Bailey's naturalmente ?
Demorou, mas aconteceu: o orkut lançou sua ferramenta de instalação de aplicativos, como um que permite bater papo com os amigos que estão online. Debandei pro Facebook um bom tempo porque lá sobram brinquedinhos como esse, mas agora os caras da Google jogaram a toalha.
Assisti a novela apenas em dois momentos, o início e o fim. Apesar dos exageros dramáticos, achei coerente a sacanagem do golpe do Ferraço no início, sua fuga, a donzela abandonada com o ódio que ia permear a estória. Anos depois, não convenceu a tranquilidade de Ferraço se despedindo para a cadeia e pedindo pra ela esperá-lo, o beijo apaixonado, o seu visual fashion black chegando na Penitenciária como quem vai à Daslu. Sem falar nessa ode à Portelinha e a Marília Gabriela brincando de ser ela mesma.
Sempre que revisito os posts antigos deste rabo a sensação é de estranhamento, lá se vão cinco anos de blog e o cara que escrevia aqui definitivamente é outro.
Ah, se eu pudesse ter a experiência de ler o blog de meus pais e antepassados, sondar seus pensamentos da juventude e elaborar idéias sobre os seus silêncios, sobre o que não era escrito. Mais sorte terão meus filhos: mesmo que eu desista deste canto um dia, eles poderão garimpar essas informações nos arquivos da Internet.
É evidente que há cinco anos eu tinha bem mais tempo livre, chegando a blogar seis ou sete vezes por dia e pela leveza dos textos dá pra perceber que toda a coisa fluía com bem menos freio no teclado. O descompromisso dessa época me aproximou da maioria dos meus amigos mais chegados de hoje e rendeu ótimas estórias. Entre algumas maluquices, do silêncio de minha estação de trabalho já ajudei a movimentar o maior flashmob de Brasília e a força do nosso anonimato acabou virando assunto (e ira) da coluna diária do Arnaldo Jabor.
É uma época que traz saudade.
Com tempo de sobra, lia-se coisa boa com mais frequência, escrevia-se descompromissado com a audiência e com o mainstream, tudo bem mais experimental. Surfar, de link em link, era como visitar uma feirinha repleta das idéias de amigos queridos ou de desconhecidos, coisa que jamais se encontraria no mundo real com tanta facilidade e rapidez. Passado este boom do início, muitos blogs ficaram pelo caminho, outros estão de molho até hoje e alguns resistiram, em outro ritmo e com novos ideais. Ficou pra trás também essa inocência, esse toque mais artesanal da blogosfera, o que é uma pena.
[...]
Acho que o grande barato dos blogs é a opinião, que não passa de um rastro da essência do blogueiro. Leio o fulano porque seu olhar crítico tem raízes na minha estória e suas opiniões acabam sendo mais ou menos familiares, mesmo que sejam opostas. Mergulho nas intimidades sexuais da sicrana porque conheço sua proposta sincera de vida e seus valores. Aquele tempo que passo por ali é como ouvi-la contar o seu dia enquanto termino de lavar a louça.
Melhor ainda poder ler o cotidiano dos amigos que moram longe: mirradas informações banais já dão um colo pra saudade, renovam nosso dia de forma rápida e certeira.
Gosto também da sinuosa fronteira entre o virtual e o real.
De tanto ler seu posts diários, já sonhei algumas vezes com uma de minhas queridas blogueiras distantes e o roteiro era sempre algo do cotidiano, como uma ida à feira ou um bate-papo no shopping sobre banalidades. Horas depois, eu acordava perplexo com essa aura de familiaridade, como se eu realmente tivesse experimentado aquilo tudo. A coisa marcou tanto que sempre que caminho por São Paulo, sigo alerta para encontrá-la por acaso, ensaiando algumas palavras, mas jamais a vi.
Em outra oportunidade, foi tudo bem mais real: passei a tarde batendo papo na sala de uma das blogueiras mais conhecidas da blogosfera tupiniquim, um referencial de cultura e sensibilidade, no pedestal de minhas favoritas. Não esqueço a sensação de me ver ali, cercado de livros e gatos passando por baixo de minhas pernas, naquela mesma chaise lounge onde já haviam sentado Bethânia, Olyvia Byington, Caymmi e Millôr. Em meio à minha perplexidade e às prateleiras intermináveis de livros estavam fotos de Tom Jobim, Vinícius de Moraes e outros amigos íntimos. Da janela eu via o Corcovado e o Redentor, que lindo.
Lembrei disso tudo depois de saber que a querida Anne, do Belos e Malvados voltou a blogar. A Anne faz parte da época da inocência na Internet e tem essa simplicidade no texto que me desarma. Nunca a conheci, mas sabe-se lá até quando.
Agora vou bater perna à caça de fotos e estórias, há sempre algo novo a se descobrir em Brasília.
Se eu pudesse resumir a reação ao fim de uma bela existência de forma sucinta, a frase escolhida seria "O que?!". Certamente esta pequena e poderosa combinação de palavras, carregada de descrença e espanto, ecoou na manhã de todos nós, ao ouvir a notícia da morte do Senador Jefferson Peres.
O assombro é tamanho que chegamos ao requinte de desautorizarmos o senador a morrer. Por trás deste choque, um grande sentimento de desamparo. Com o desaparecimento deste pequeno pilar da ética, o Senado parece prestes a ruir, como um castelo de cartas.
Jefferson nos deixa desamparados de sua política e é justamente essa necessidade da boa política que nos atormenta. Este vazio deixado pelo seu desaparecimento nos faz lembrar que a política, como proposta, não é ruim.
A atuação dos maus políticos é que desvirtuou tudo, transformando a Casa do Povo em ratoeira.
A ironia é que estes mesmos ratos passarão os próximos dias encenando seu discurso estéril em TV aberta, louvando de forma hipócrita um exemplo tão antagônico às suas práticas.
[...]
Em breve será devolvido à Terra não apenas um pequeno grande homem, mas um ideal que também era nosso e que perde cada vez mais força.
Diante da repercussão nacional, a morte de Jefferson acaba parecendo uma metáfora de sua própria atuação política: discreta, sutil e poderosa.
Dia fodaço de bom com os caras do Discovery Channel Canada. Depois de dois meses de intensas negociações, seremos um dos assuntos do especial de Ciência e Tecnologia sobre o Brasil, a ser veiculado tipo assim no mundo todo, a partir de outubro.
Depois deste dia intenso de filmagens, as noites mal dormidas viram fichinha quando imagino a dimensão da visibilidade global que alcançaremos. Tô feliz pra caralho de ter grande parcela de culpa nessa estória.